Multiartista da Zona Leste ressignifica Exus e Pombagiras com entregadores, recicladores e pessoas em situação de rua

  • 28/07/2026
(Foto: Reprodução)
Artista da Zona Leste de SP cria série com os Exus e Pombagiras do amanhã Exus com mochila de aplicativo nas costas, Pombagiras inspiradas em mulheres trans, trabalhadores da reciclagem, pessoas em situação de rua e profissionais do sexo. É assim que o multiartista Ezio Rosa, de 32 anos, morador da Zona Leste de São Paulo, propõe um novo olhar sobre entidades das religiões de matriz africana na série "Santinhos do Novo Mundo". Parte das esculturas existe fisicamente; outras vivem apenas no ambiente digital e são compartilhadas nas redes sociais do artista, onde ele publica a série. Feito no candomblé e dofono de Logunedé há nove anos, Ezio conta que a série nasceu da necessidade de criar um novo imaginário social sobre Exus e Pombagiras, aproximando essas entidades da realidade da periferia e das pessoas que vivem à margem da sociedade. "Quando eu proponho imaginar quem serão os Exus e as Pombagiras de amanhã, é da gente que eu estou falando. Do moleque que cola no baile funk de boné da Lacoste, do motoboy com a bag do iFood, da mulher trans que está no corre da sobrevivência. São pessoas atravessadas pela religiosidade e pelas questões do mundo", afirma. A ideia surgiu a partir da própria vivência religiosa do artista. Série “Santinhos do Mundo” cria novas representações de Exus e Pombagiras do futuro Reprodução: Ezio Rosa/Instagram "Eu percebo que muitas pessoas têm um imaginário sobre Exu e Pombagira que nem sempre se aproxima do que essas entidades representam. O projeto nasce dessa necessidade de pensar novos imaginários que não excluam pessoas trans, pessoas em vulnerabilidade social, profissionais do sexo e outras personalidades que dialogam com essa realidade", explica. Antes de se tornar multiartista, Ezio encontrou no teatro sua primeira forma de expressão. Criado na Zona Leste, ele conta que a mãe teve um papel decisivo em sua trajetória ao incentivá-lo a participar de oficinas culturais, preocupada em mantê-lo longe da violência das ruas. "A minha mãe falou que não era para eu ficar na rua o dia inteiro, mas também que não era para ficar trancado dentro de casa. Foi assim que o teatro entrou na minha vida", lembra. O teatro abriu caminho para outras linguagens artísticas, e suas principais referências continuam sendo as pessoas que encontra no cotidiano. "Uma vizinha, uma pessoa em situação de vulnerabilidade, alguém que encontro no caminho para o trabalho. São essas pessoas que inspiram a minha arte", diz. Cada obra nasce de um processo diferente. Algumas surgem de sonhos, outras de conversas com amigos ou de pessoas observadas nas ruas. O plano do artista é materializar cada vez mais essas ideias, mas algumas imagens existem apenas virtualmente. Ele diz que não faz questão de revelar quais existem fisicamente e quais não existem porque, a partir do momento em que joga essa ideia para o mundo, ela passa a existir. 🔱💃 O que são Exus e Pombagiras? Exus e Pombagiras são entidades das religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé. Ao contrário do que difundem estereótipos e preconceitos religiosos, não representam o mal. São considerados guardiões dos caminhos, responsáveis por abrir caminhos, proteger, orientar e fazer a comunicação entre o mundo material e o espiritual. Também atuam como mensageiros entre os seres humanos e o divino e são associados às encruzilhadas, símbolo de escolhas, transformação e movimento. Para Ezio, compreender a história dessas entidades é entender que elas nasceram da experiência humana. "Quando a gente vai estudar a fundo a história de Exu e Pombagira, quem foram eles? Foram pessoas que mataram, que roubaram, mas que também amaram, que se entregaram e sofreram. São muitas nuances quando a gente vai falar da história dessas entidades", afirma. É por isso que, para ele, os Exus e as Pombagiras do presente podem estar representados no entregador de aplicativo, na trabalhadora sexual, na pessoa trans, no catador de recicláveis ou na pessoa em situação de rua. "A crítica social é fazer a gente entender que Exu e Pombagira estão muito mais próximos da gente do que imaginamos. Nem só de luxo vivem Exus e Pombagiras. Quando eu trago essas representações, é para criar um novo imaginário social sobre essas entidades", diz. Segundo o artista, a série dialoga principalmente com pessoas negras, periféricas e indígenas, mas também busca aproximar quem não conhece as religiões de matriz africana, fazendo com que elas enxerguem essas esculturas não apenas como peças de arte, mas como uma reflexão sobre as mazelas sociais. Ezio reconhece que a recepção entre praticantes das religiões de matriz africana é dividida. Enquanto parte do público compreende a proposta artística, outra considera que as representações rompem com a tradição. "É claro que é importante manter a tradição viva, mas também é importante entender que o mundo mudou. Se você tem dificuldade de enxergar Exu representado por uma pessoa em situação de vulnerabilidade social, você não entendeu absolutamente nada de Exu, de Pombagira e de religiosidade", conclui. Pombagira catadora Reprodução: Ezio Rosa/Instagram MC Zoi de Gato, MC Kevin e MC Daleste: referências do funk eternizadas na memória Reprodução: Ezio Rosa/Instagram Exu entregador Reprodução: Ezio Rosa /Instagram

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/07/28/multiartista-da-zona-leste-ressignifica-exus-e-pombagiras-com-entregadores-recicladores-e-pessoas-em-situacao-de-rua.ghtml


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