Caminho cinco vezes mais longo, barro e ruas interditadas: obra na Zona Sul de SP afeta comércio e rotina de trabalhadores

  • 30/10/2026
(Foto: Reprodução)
Desvio de 1km, ruas interditadas e comércios esvaziados: obra de prolongamento da Avenida Chucri Zaidan muda rotina local Uma obra de prolongamento da Avenida Chucri Zaidan tem afetado o comércio e o trânsito na região da Chácara Santo Antônio, na Zona Sul da capital paulista. A interdição da travessia de pedestres no cruzamento da Rua Verbo Divino com a Avenida Cecília Lottenberg desde 17 de outubro dificultou o acesso aos estabelecimentos e aumentou o percurso de quem circula pelo local. A previsão de liberação é fevereiro de 2027. Um trajeto que antes tinha cerca de 200 metros passou a exigir um deslocamento de aproximadamente um quilômetro para chegar aos comércios do outro lado da via. Além da distância maior, pedestres precisam enfrentar trechos com barro e resíduos de cimento, além de uma calçada estreita, condições que dificultam ainda mais a circulação, principalmente em dias de chuva. Interdição da travessia de pedestres transforma percurso de 200 metros em trajeto de 1 km. Reprodução Os impactos atingem tanto os comerciantes quanto os trabalhadores de empresas próximas, que precisam mudar a rotina para conseguir chegar aos estabelecimentos. Gabriel Pinheiro, líder executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em São Paulo (Abrasel SP), disse, em nota, ter recebido relatos de queda de 50% no faturamento após o início das obras. "Além disso, os trabalhadores passaram a gastar pelo menos 35 minutos a mais no trajeto até os estabelecimentos, o que reduz o tempo disponível para o almoço e dificulta o acesso dos clientes aos restaurantes”, afirma. Milvan Matos, de 58 anos, proprietária de um restaurante há 25 anos, confirmou ao g1 que o movimento do almoço caiu cerca de 50% após o fechamento da travessia. Segundo ela, mesmo os clientes que trabalham perto do restaurante acabam desistindo por causa da distância e do tempo necessário para fazer o percurso. “Por mais que esteja de perto, essa pessoa tem que fazer todo um quadrado para poder vir. E dá 900 metros”, afirma. “Então ficou, assim, totalmente inviável.” O percurso maior se tornou um obstáculo principalmente para quem tem pouco tempo para almoçar. Milvan cita funcionários de empresas da região que contam com apenas 15 minutos para fazer a refeição antes de voltar ao trabalho. “Eles vinham rapidinho, comiam e voltavam. Acabou”, afirma. Comerciantes relatam perda de clientes, mudanças de endereço e queda de até 50% no faturamento Laura Baílio/ g1 A comerciante diz que a consequência mais imediata foi o desaparecimento dos clientes do café da manhã. Ela conta que chega ao restaurante por volta das 4h30 para preparar os alimentos, mas passou a abrir as portas sem receber o público que costumava atravessar a via para tomar café. “Meu café da manhã zerou. Eu não atendo um cliente no café da manhã”, relata. A queda no movimento ocorre em um período em que os gastos do restaurante aumentam. Milvan cita despesas com o 13º salário, férias dos funcionários, aluguel, impostos e compra de materiais. Sem saber como o negócio vai se sustentar nos próximos meses, ela demonstra preocupação com as contas acumuladas. “É uma época em que a gente mais precisa ganhar dinheiro. Décimo-terceiro de funcionário, IPTU, aluguel, material. Então, assim, é uma série de dívidas que a gente tem de final de ano”, diz. “Não sei como vai ficar.” Helder Antônio, de 44 anos, é proprietário de uma loja de doces que funcionava no cruzamento que a obra Interditou. Com o fechamento do acesso, ele precisou mudar o estabelecimento para um endereço próximo e deixou uma placa no local para orientar os clientes que ainda procuram a loja no antigo endereço. “Deixei uma placa lá para ver se aumentava o fluxo de gente, mas não adiantou muito”, diz. Comerciantes relatam perda de clientes, mudanças de endereço e queda de até 50% no faturamento Laura Basílio/ g1 O impacto financeiro, segundo ele, foi significativo. Helder estima que o faturamento da loja tenha caído cerca de 50% e afirma que precisou dispensar dois funcionários para manter o negócio funcionando. "Eu já tive que dispensar dois funcionários por causa disso”, destaca. O comerciante cobra uma solução que permita manter o acesso aos estabelecimentos durante os trabalhos. “Nós não estamos sendo contra a obra. Nem adianta, porque seria impossível ser contra isso. Não é este o objetivo. Nós só estamos pedindo que eles deem uma olhada melhor para a gente, para proporcionar uma solução”, afirma. Para Helder, uma das principais dificuldades é a falta de diálogo sobre alternativas práticas. Ele diz que os comerciantes recebem comunicados sobre interdições e mudanças no trânsito, mas que os avisos não resolvem os problemas de quem precisa continuar trabalhando. “Eles falam que estão atendendo todo mundo, que o canal está aberto, à disposição. Mas sempre só vem assim: ‘Vai fechar tal dia’ e pronto”, afirma. A Abrasel SP diz que reconhece a "importância das obras para a infraestrutura da cidade e a necessidade de proteger pedestres, trabalhadores e demais usuários da via". Mas defende "uma alternativa que concilie as exigências de segurança com a continuidade das atividades comerciais". Para a entidade, a solução não deve expor a população à área de intervenção, mas assegurar uma passagem protegida, próxima e devidamente sinalizada. "A proposta é avaliar a manutenção da travessia em condições seguras ou, caso isso não seja tecnicamente viável, a implantação de uma passagem provisória, preferencialmente a até 150 metros do ponto interditado. (...) Um levantamento preliminar identificou 32 bares e restaurantes, além de outros comércios e serviços, distribuídos por 29 endereços da própria Rua Verbo Divino, em um raio de até 500 metros do cruzamento", diz a associação. Interdição da travessia de pedestres transforma percurso de 200 metros em trajeto de 1 km. Reprodução Impacto não foi só em bares e restaurantes As mudanças na circulação também afetaram outros estabelecimentos da região. Cristiane Oliveira Arruda, de 49 anos, é proprietária de uma loja de roupas e afirma que começou a sentir os efeitos das obras em dezembro, quando foram instaladas placas proibindo o estacionamento em frente ao comércio. Sem a vaga, ela diz ter perdido clientes que costumavam ir à loja de carro. “Isso me afetou muito, porque eu perdi quem vinha de carro”, conta. Segundo Cristiane, a dificuldade de parar próximo ao estabelecimento faz com que algumas clientes desistam da compra. Para tentar reduzir o problema, a comerciante colocou uma placa na loja indicando o estacionamento mais próximo. A comerciante também demonstra preocupação com a proximidade do fim do ano, período importante para as vendas. “Está chegando a época de final de ano, que para o comércio é a época mais esperada”, afirma. Nova rotina para funcionários Os efeitos das interdições também são sentidos por quem trabalha nas empresas próximas ao trecho em obras. Bianca Toledo, de 43 anos, conta que os colegas passaram a trocar os restaurantes que frequentavam porque o caminho até os estabelecimentos ficou mais difícil. Segundo ela, os trabalhadores precisaram adaptar a rotina para evitar o trajeto mais longo e as condições do percurso, especialmente nos dias de chuva. Parte dos funcionários passou a levar comida de casa para não precisar sair durante o expediente. Interdição da travessia de pedestres transforma percurso de 200 metros em trajeto de 1 km. Reprodução “Muitos de nós começamos a trazer marmita porque, assim, não saímos nem andamos no barro de cimento. E muitas funcionárias da empresa usam salto, o que fica pior ainda, principalmente quando chove”, conta. Bianca também relata que o deslocamento até o trabalho aumentou após as mudanças na circulação dos ônibus e nos acessos à região. Segundo ela, quem utiliza o transporte coletivo precisa descer antes do ponto habitual e completar parte do caminho a pé. Quem vai de trem também enfrenta uma caminhada maior. “Se venho de [ônibus] fretado, o trajeto que demorava 8 minutos passou a ser de 16 [minutos]. Se venho de ônibus, preciso descer dois pontos antes e fazer uma caminhada grande. Se venho de trem, também preciso andar muito. Isso tem aumentado pelo menos 30 minutos no meu trajeto”, afirma. Interdição da travessia de pedestres transforma percurso de 200 metros em trajeto de 1 km. Laura Basílio/ g1 O que é a obra na região As intervenções fazem parte do prolongamento da Avenida Doutor Chucri Zaidan, projeto da Prefeitura de São Paulo ligado à Operação Urbana Água Espraiada. O projeto prevê a extensão da avenida por aproximadamente 3 km, conectando a região da Avenida João Doria à Avenida João Dias. Entre as intervenções está a construção de um túnel sob a Avenida Cecília Lottenberg, com cerca de 900 metros, entre a Praça Embaixador Cyro de Freitas Valle e a Rua da Paz. O conjunto de obras também inclui intervenções no sistema viário, implantação de corredor de ônibus e melhorias em calçadas e estruturas destinadas a pedestres e ciclistas. O investimento anunciado pela prefeitura é de R$ 376 milhões. Os trabalhos foram retomados em 2024, após uma paralisação relacionada a questões contratuais e orçamentárias. Desde então, diferentes etapas da obra provocaram alterações no trânsito, com bloqueios e desvios em ruas do entorno. O que diz a prefeitura A Prefeitura de São Paulo, por meio da SPObras, informou que o fechamento da travessia de pedestres foi necessário por razões de segurança durante a construção do túnel. Segundo o órgão, as intervenções exigem a operação de equipamentos de grande porte, como guindastes utilizados para movimentar cargas pesadas. Para minimizar os impactos, a administração municipal afirma que estabeleceu rotas alternativas e instalou sinalização para orientar os pedestres, incluindo placas que indicam os acessos aos estabelecimentos da região. De acordo com a SPObras, a previsão de liberação da via é fevereiro de 2027. Já a conclusão das obras está prevista para maio do mesmo ano. *Sob supervisão de Paula lago

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/10/30/caminho-cinco-vezes-mais-longo-barro-e-ruas-interditadas-obra-na-zona-sul-de-sp-afeta-comercio-e-rotina-de-trabalhadores.ghtml


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